Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, traça o diagnóstico do que ainda falta para que o Brasil passe de seguidor a protagonista na inovação em saúde: da lei de pesquisa clínica ao consórcio nacional de câncer com Oxford, dos limites das PDPs à inteligência artificial como ferramenta de descoberta.
O Brasil foi de 1,8% para 2,2% da pesquisa clínica mundial entre 2024 e 2025.
O número pode parecer modesto. Para quem acompanha de perto o ecossistema de inovação em saúde no país, no entanto, ele representa uma virada de trajetória.
No quarto episódio do ARCA Talks Entrevistas, Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (Sectics) do Ministério da Saúde, fala sobre o que está por trás desse movimento, o que ainda falta para consolidá-lo e por que produzir — que foi a grande conquista das últimas décadas — não é mais suficiente.
A lei de pesquisa clínica coloca o Brasil em outro patamar?
A lei de pesquisa clínica foi aprovada em 2024 e regulamentada pelo presidente Lula em 2025. Trata-se de uma das mudanças mais relevantes no ecossistema de inovação em saúde do Brasil nos últimos anos. Os primeiros sinais já são visíveis.
“A regulamentação de fato muda o cenário para realização de pesquisa clínica no Brasil”, afirma De Negri. “Temos visto vários atores comentarem que os investimentos em pesquisa no Brasil estão aumentando.”
Os dados confirmam. De fato, a participação brasileira na pesquisa clínica mundial subiu de 1,8% em 2024 para 2,2% em 2025. O número ainda é baixo em termos absolutos, mas a direção importa.
Além disso, a lei veio acompanhada de regulamentações infralegais. Criou também a Instância Nacional de Ética em Pesquisa, com o objetivo de tornar mais ágil a aprovação ética dos protocolos de pesquisa no país.
“Quando a gente alcançar as metas de prazo de análise colocadas pela lei, o Brasil vai estar entre os países líderes do mundo em pesquisa clínica”, projeta a secretária.
Pesquisa clínica como estratégia econômica — e não só científica
Durante décadas, a pesquisa clínica no Brasil foi vista quase exclusivamente como atividade científica. Uma fronteira que pertencia às universidades e aos centros de pesquisa.
Esse enquadramento, no entanto, está mudando.
“Ela tem que ser vista como atividade científica, como estratégia econômica industrial e como estratégia de acesso e de desenvolvimento de novas tecnologias”, explica De Negri. “Ela gera conhecimento, gera emprego, gera renda e tem potencial enorme de gerar inovações no Brasil.”
Há ainda uma dimensão específica da realidade brasileira que torna o argumento mais forte: diversidade genética.
“Hoje a gente usa medicamentos testados em populações com características genéticas muito diferentes da população brasileira. Quando você testa aqui, os efeitos não são exatamente os mesmos”, aponta a secretária.
Por isso, desenvolver pesquisa clínica localmente não é só uma questão de autonomia produtiva. É também uma forma de garantir que os medicamentos do SUS sejam adequados à realidade da população brasileira.
Do produzir ao inovar: o que ainda falta
De modo geral, a trajetória da indústria farmacêutica brasileira tem uma lógica clara.
Primeiro vieram os genéricos. A política de medicamentos genéricos foi o motor do crescimento inicial do setor. Criou uma base industrial que antes não existia. Em seguida, vieram as PDPs, as Parcerias de Desenvolvimento Produtivo. Elas induziram transferência de tecnologia e levaram o Brasil a produzir biológicos, vacinas e insulinas.
“Se você pensar há 10 anos atrás, você não tinha indústrias brasileiras produzindo produtos biológicos no país. Hoje você tem”, resume De Negri.
Essa trajetória, porém, chegou a um ponto de inflexão.
“A gente tinha políticas para financiar pesquisa básica. Tinha políticas para financiar a produção e a transferência de tecnologia. Mas faltava o meio do campo: transformar pesquisa básica em inovações que cheguem ao paciente e ao SUS”, identifica a secretária.
O exemplo mais concreto veio do mercado. Com o surgimento dos agonistas de GLP-1 — como a semaglutida —, o Brasil se viu diante de uma inovação desenvolvida completamente fora do país. Como resultado, o impacto na balança comercial foi gigantesco.
“Uma inovação desenvolvida fora do país teve impacto gigantesco na nossa balança comercial”, observa De Negri. “Se a gente só aprender a produzir, não é suficiente. Tem que aprender a inovar. Senão, não consegue desenvolver autonomia produtiva de longo prazo.”
Além das PDPs: os novos instrumentos de política de inovação
Contudo, as PDPs continuam sendo um instrumento relevante. O problema não é o que elas fazem, mas o que elas não foram desenhadas para fazer.
“Elas precisam ser complementadas porque as empresas que cresceram nesse contexto precisam dar um passo adicional: inovar, criar inovações no Brasil, desenvolver novos medicamentos e novas moléculas no país ou novos dispositivos de saúde”, explica a secretária.
Para avançar nessa direção, dois novos instrumentos estão sendo desenvolvidos em paralelo.
O primeiro é o Programa de Inovação Radical em Saúde, desenvolvido em parceria com o CNPEM. Sua meta é criar condições para que novas drogas e novos dispositivos sejam descobertos e desenvolvidos no Brasil — e não apenas produzidos aqui depois de inventados lá fora.
Já o segundo instrumento é a encomenda tecnológica. Trata-se de algo que o Ministério da Saúde praticamente nunca usou por conta própria, embora a Fiocruz o tenha utilizado na época da COVID com a AstraZeneca. O primeiro uso concreto do Ministério será para um dispositivo de teste para tuberculose que ainda não existe no mercado.
“Vamos começar a usar esse instrumento para de fato diversificar esse portfólio de instrumentos de política que estão à disposição do ministério, além do instrumento de poder de compra que é feito via PDP”, anuncia De Negri.
O Consórcio Nacional de Pesquisa em Câncer
Um dos exemplos mais concretos de como o Ministério está tentando conectar ciência, indústria e assistência é o Consórcio Nacional de Pesquisa em Câncer.
A iniciativa nasceu de uma viagem à Inglaterra. Lá, foi assinado um memorando de entendimento com a Universidade de Oxford. Ao voltar ao Brasil, a secretaria reuniu hospitais de excelência do ProadSUS com Fiocruz, INCA, CNPEM e outras instituições. O ProadSUS é o programa de incentivo fiscal a hospitais que fazem pesquisa e avaliação tecnológica em saúde.
“Desse pequeno movimento de reunir interlocutores diversos, a gente está criando um consórcio enorme de pesquisadores brasileiros na área do câncer”, conta De Negri.
O passo seguinte será incluir a indústria no processo desde o início. Assim, o desenvolvimento científico já nasce com perspectiva de chegar ao mercado. Depois, os gestores de saúde entram para garantir a incorporação no atendimento ao paciente.
Além disso, a inteligência artificial será uma das ferramentas centrais do consórcio. “Cada vez mais a indústria farmacêutica e a pesquisa científica mundial usam IA para trabalhar dados e gerar mais conhecimento”, explica a secretária.
Inteligência artificial: uma janela de oportunidade para o Brasil
Na entrevista, a IA aparece não como promessa abstrata, mas como ferramenta concreta em dois contextos diferentes.
Em primeiro lugar, o apoio ao diagnóstico: identificação de padrões em imagens microscópicas e exames de imagem, onde a IA consegue captar anomalias com mais eficiência do que o olho humano — especialmente ao longo de uma jornada de trabalho prolongada.
Em segundo lugar, o processo de pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos. Nesse campo, a IA já é usada globalmente para analisar grandes volumes de dados e gerar hipóteses em velocidade impossível para métodos manuais.
“O potencial de usos e aplicações da inteligência artificial na saúde é de fato gigantesco, porque tem uma janela de oportunidade muito grande pra gente nessa tecnologia”, afirma De Negri.
Risk sharing: de exceção heróica a prática regular
De fato, o Zolgensma foi um marco. Trata-se do medicamento para atrofia muscular espinhal — com um dos preços mais altos do mundo — e foi a primeira terapia incorporada ao SUS com contrato de pagamento por resultado.
Transformar isso em prática regular, porém, enfrenta um desafio que vai além do jurídico.
“A gente aprendeu a fazer o arcabouço jurídico para fazer isso. Qual é o grande desafio agora? É o arcabouço técnico para fazer mais contratos de compartilhamento de risco”, explica De Negri.
Para funcionar, esses contratos dependem de estrutura informacional sólida em todo o SUS. O país tem avançado nesse sentido: a Rede Nacional de Dados em Saúde já reúne 5 bilhões de registros, e o CPF passou a ser o identificador único do paciente na rede.
Ainda assim, há caminho a percorrer. O modelo mais sofisticado é o contrato por desfecho clínico, como foi o caso do Zolgensma. Nesse formato, o Ministério só paga quando o paciente atinge o resultado esperado — o que exige acompanhamento individual de cada um.
Para outros modelos, no entanto, o desafio é menor. No compartilhamento por número de pacientes, a indústria absorve o custo do que exceder a estimativa original. No compartilhamento por teto orçamentário, o Ministério define o valor disponível e a empresa ajusta o preço. Ambos exigem menos infraestrutura e podem ser escalados com maior rapidez.
“Acho que a gente não tem capacidade hoje de fazer 10 contratos iguais ao do Zolgensma. Mas temos capacidade de fazer outros, especialmente nessas outras duas modalidades”, reconhece a secretária.
Como garantir que essa agenda sobreviva a mudanças de governo
Frequentemente, a pergunta sobre continuidade entre gestões aparece no setor de saúde. Para De Negri, no entanto, a resposta é diferente do que muitos esperam. Não é a regulamentação que garante a sobrevivência de uma política. É o enraizamento social.
“A agenda só se sustenta se for vista pela sociedade como relevante. Empresas, pesquisadores, pacientes e gestores precisam enxergar isso”, afirma.
Por isso, a secretaria constrói as políticas de inovação ouvindo empresas, pacientes e profissionais de saúde — e não de cima para baixo.
“A partir dessa construção feita à sociedade, você incorpora a sociedade nessas políticas. Dessa forma, elas deixam de ter a assinatura de um gestor específico e se tornam uma política de interesse de toda a sociedade. É isso que dá estabilidade no longo prazo.”
Mensagem final
Por fim, ao encerrar a conversa, a apresentadora fez a pergunta final: se o Brasil tivesse que escolher uma única prioridade na saúde para os próximos anos, qual seria?
A secretária não hesitou — mas também recusou a premissa.
“É difícil falar em uma prioridade, porque a gente fica imaginando que alguma bala de prata vai resolver todos os nossos problemas. Em geral, os problemas são tão complexos que a gente precisa atuar em diversas frentes.”
Para ela, porém, se fosse nomear uma única coisa, seria: coordenação.
“O que é fundamental é a coordenação das ações de governo na área da saúde, que junte a incorporação, a produção, o desenvolvimento tecnológico com a assistência. Talvez a palavra prioritária aí seja coordenar essas ações.”
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Fernanda De Negri é economista, doutora em Economia pela Unicamp, com pós-doutorado e pesquisa em universidades dos Estados Unidos. Foi pesquisadora sênior e diretora do Ipea por mais de 20 anos, com vasta experiência em economia industrial, política científica e tecnológica e inovação em saúde. Desde março de 2025, ocupa o cargo de secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (Sectics) do Ministério da Saúde.
Assista a entrevista:
Esta entrevista é o quarto episódio do ARCA Talks Entrevistas. Assista ao episódio completo abaixo: